Uma carta de suicídio no
Facebook...
Motivo?
Porque eu achei necessário. Não só para falar de mim, mas para
falar algumas coisas que as pessoas não estão se dando conta sobre
suicídio. Alerta de textão informativo junto (quase um TCC
ushuahsua)
A
certeza de que eu morreria pelas minhas próprias mãos nasceu
comigo, as coisas que ocorreram entre meu nascimento e o dia de hoje
só determinaram quando isso aconteceria. Lembro de ter 13, 14 anos e
as ideações suicidas já estavam lá.10 anos depois e nada mudou,
sinto que o que fiz até agora foi apenas adiar o inevitável. Sempre
deixei a ideia ali guardada, pra quando eu não aguentasse mais viver
ter uma forma de escapismo eterna. E eu sabia que um dia eu não
aguentaria mais, porque viver, pra pessoas como eu, é pesado e
dilacerante. Não que pra alguém seja fácil, mas pra uns é mais
suportável, não é meu caso. Eu sou uma dicotomia ambulante, dentro
de mim há uma constante briga entre 2 opostos. Tem um lado meu que
me ama, me venera, que valoriza todas as minhas habilidades e que me
acha uma pessoa incrível, narcisismo puro. Mas tem um eu dentro de
mim que me odeia. Me auto sabota todos os dias, me faz acreditar que
eu não mereço ser feliz, me faz crer que sou problemático demais
pra ser verdadeiramente amado. Às vezes me pergunto qual a sensação
de viver sem ser assim? O quão leve deve ser deitar e conseguir
parar de pensar. Eu penso demais, sobre tudo e o todo o tempo, meu
cérebro não desliga pra nada, penso meticulosamente em coisas que
eu nem queria pensar. E isso é horrível, porque aumenta a
racionalidade exacerbada que eu tenho quando não estou em crise. Por
outro lado, eu tenho uma sensibilidade gigante que quando estou em
crise é elevada à enésima potência, e isso dói muito. É como se
racionalmente eu tivesse a capacidade de compreender o mundo e cada
uma das pessoas de uma maneira muito mais nítida e óbvia do que as
pessoas normais, mas emocionalmente eu não tenho a base necessária
pra aguentar a carga que essa compreensão toda me traz. E aí eu
surto, e não é pouco. Cada surto é como uma morte lenta e
dolorosa.
Outro
fato é que não consigo gostar de uma vida comum, preciso sempre de
novas emoções, novas experiências, em 50% do meu tempo eu estou
provocando sentimentos em mim mesmo e nos outros, e nos outros 50% do
meu tempo eu estou tentando lidar com as consequências disso (que
geralmente são péssimas). Eu nunca consegui entender como alguém
consegue ser feliz tendo uma rotina, acordando, desejando bom dia,
trabalhando, namorando, estudando, socializando. Como as pessoas não
ficam entediadas com isso? Como não buscam algo de extraordinário?
Se até o extraordinário me entedia! Pra mim é assim, eu consigo
uma coisa e 5 minutos depois já não tem a mesma importância,
preciso de algo novo, pra assim que eu conseguir, 5 minutos depois
também já não ter mais tanta importância. Acredito que as únicas
sensações eternas e latentes em mim sejam a de tédio, a de vazio e
a de dor que esse vazio me causa. De resto, vou do céu ao inferno em
1 hora. Sou capaz de experimentar todo o espectro de sensações
humanas em 1 só dia. E isso cansa. Pensar de mais cansa, sentir
demais esgota. Ser demais uma hora da vontade de simplesmente não
ser mais.
Tudo
o que fiz pra sobreviver até aqui foi utilizar mecanismos de
defesas, válvulas de escape, formas de fuga da realidade. Então pra
quem chegou a me conhecer, qualquer versão de mim que não seja a de
um guri fodidamente depressivo e com transtorno de personalidade, com
desenvolvimento emocional digno de uma criança de 10 anos e com
pavor de ser abandonado/rejeitado, era escapismo puro. Provavelmente
era alguma das 1001 versões irreais de mim que eu criei pra não ter
que encarar a realidade. E acredite, mentir pra si mesmo é sempre a
pior mentira. Eu tinha vergonha de assumir minhas fraquezas, e não
nego, se eu optasse por continuar vivo não as assumiria. As pessoas
são desinformadas, cruéis ou as vezes as 2 coisas juntas. Aos 45'
do 2º tempo eu assumi pra alguns amigos meus, e acredite: poucos
sabem lidar. Uns correm, outros se retraem, outros usam o fato de
você ser "transtornado" pra justificar os vacilos deles
mesmos contigo. Se 1 escolher ficar é muito. Eu imaginei que seria
assim, por isso tive receio de exteriorizar antes. Logo eu, que
sempre fui um ótimo psicólogo pros meus amigos, logo eu que sempre
escuto "nossa.. queria ter o Q.I que você tem, que
inteligência!". Logo eu que sou autodidata em psiquiatria. Hoje
afirmo que todo esse conhecimento de nada adianta se você não pedir
ajuda quando não consegue mais seguir sozinho. Sabe o que esse
conhecimento me traz hoje? Raiva, por saber de tudo que eu sei e ser
incapaz de me controlar durante uma crise, ser incapaz de viver, ser
incapaz de pedir ajuda. Pra quem é como eu e está lendo isso: não
é vergonhoso gritar por socorro, não é vergonhoso ter depressão,
ter TPB ou qualquer outro transtorno não faz de você menos
inteligente ou um profissional ruim, muito pelo contrário, na reta
final conheci pessoas como eu que são excepcionais e que merecem o
mundo. Vergonhoso é se enfiar no rio de merda que eu me enfiei e não
ter mais por onde sair.
O
que também acaba comigo, é que embora eu tenha reais motivos para
estar triste, eu não precisaria deles. Minha essência é assim, é
a tristeza pela tristeza, a dor pela dor; como diria Schopenhauer "a
essência da existência é a dor". O que me destrói é saber
que eu vivi um total de 9.249 dias de vida, e que eu poderia viver
mais 9.249 e não acharia nada que trouxesse sentido pra minha
existência. Eu fiz 5 anos de graduação no curso que eu sonho desde
pivete, e isso hoje me é indiferente. Fiz cursos de extensão na
área que eu amo e nada disso me entusiasma. Sei que vivo, eu teria
uma carreira brilhante pela frente, seja na magistratura criminal ou
como advogado criminalista, me sairia muito bem em qualquer uma das
carreiras. Mas isso não me motiva. Vejo meus amigos que se formaram,
cheios de dúvidas e expectativas, e eu não. Porque o que me
incomoda é a certeza. Certeza de que assim que eu começasse minha
carreira, nos primeiros 5 minutos eu iria enjoar, me entediar, e me
questionar "é pra isso aqui que você ficou vivo? Toda dor
diária é pra isso?". Não me parece ter sentido, mesmo sendo
meu sonho. Aliás, carrego comigo milhares de sonhos e uma lição:
definitivamente sonhos não são o suficiente pra manter viva uma
pessoa como eu.
Por
todo o exposto, há mais de 3 meses planejo meu suicídio. Incluindo
neles 2 tentativas. Acredite, quando uma pessoa tenta se matar
(independentemente das razões pelas quais não conseguiu) é
frustrante demais. A ressaca moral que vem depois, a sensação de
impotência, inutilidade e fracasso que vem depois é enorme. Então
poupe quem passa por isso de julgamentos. A vida com essa pessoa já
é dura o suficiente a ponto de ela não querer mais viver.
Julgamentos não ajudam, uma palavra de conforto sim. Desde que
decidi que o momento era esse, eu, que sempre fui um apreciador nato
do comportamento humano, fiz do meu plano suicida uma espécie de
experimento. A conclusão foi o óbvio: suicídio é um tabu, as
pessoas não estão dispostas a aprender sobre ele, e o nível de
ignorância é absurdo. Há 12 dias, eu ouvi a seguinte pérola de
uma amiga que também tem depressão: "quem quer se matar se
mata, não fala que vai fazer, isso não existe". Bom, fico
feliz que agora ela sabe que existe kkk (ironia), porque isso é uma
das maiores falácias sobre suicídio, e se uma pessoa depressiva,
que tem amigos potencialmente suicidas pensa assim, imagina o que os
outros não pensam?? É mais do que necessário passar a tratar o
suicídio com zelo e atenção, além de elaborar políticas públicas
pra que a prevenção se torne mais eficaz. Vai falar de prevenção
pra alguém que chegou no nível de determinismo que eu cheguei, a
pessoa vai rir. Eu só estou falando aqui sobre prevenção porque há
pessoas que, diferente de mim, não querem se matar, querem ser
notadas e ajudadas. Já passou da hora de entender que a prevenção
ao suicídio começa muito antes da pessoa tentar contra a própria
vida. O que vem depois disso é desespero. E desespero com alguém
que já está desesperado nem sempre funciona. Prevenção ao
suicídio começa na infância, quando você se preocupa em ouvir seu
filho, quando você observa o comportamento dele e faz o necessário
pra ajudar no primeiro sinal de que algo não está certo. Prevenção
ao suicídio começa quando você ensina pra ele que todos somos
diferentes e que há beleza dentro de nossas peculiaridades, quando
você ensina a não praticar Bullying e a respeitar os colegas e
professores. Prevenção ao suicídio começa quando ele chora porque
levou um fora e você explica que tudo bem, que faz parte da vida, ao
invés de ajudar a reforçar a ideia de que ele é um frouxo por não
ter conseguido o que queria (e que não dependia só dele). Começa
quando sua filha chega falando que foi assediada e você corre atrás
pra saber o que aconteceu e tomar as medidas cabíveis ao invés de
culpa-la. Começa quando você acolhe seu filho com as diferenças
dele, ao invés de colocá-lo pra fora de casa por ele ser diferente
daquilo que você almejou um dia (lembre-se que muitas vezes você
não é o pai/mãe que ele sonha ou que merecia). Prevenção ao
suicídio começa quando você percebe que um amigo não está bem e
tira 1 hora do seu dia pra uma conversa. Começa quando você está
disposto a ajuda-lo, quando você leva a sério a depressão dele,
quando você não usa o transtorno dele pra machuca-lo mais ainda.
Nunca diga pra um potencial suicida continuar vivendo porque vai
fazer a família sofrer, ou porque vai fazer seus amigos se sentirem
culpados. Mostre a ele razões pra que continue vivo por ele mesmo.
Terceirizar uma razão pra viver não é algo digno, e nem é um ônus
que deva ser depositado no outro. Se eu não sou mais capaz de ver no
meu interior motivos pra continuar vivo, melhor não estar. A
prevenção começa quando entendemos que não falar sobre o problema
não vai fazer ele desaparecer, é necessário falar, é necessário
estudar, é necessário prevenir de uma maneira muito mais eficaz do
que está sendo feito até hoje. Prevenção ao suicídio começa
quando nos é ensinado a desenvolver resiliência, resiliência é a
chave pra se evitar suicídios cometidos por impulso, porque sim,
muitos suicídios não são planejados e poderiam mais ainda ser
evitados. Não existe uma fórmula suicida, a única coisa comum em
todos é a morte, todo o resto é variante, e geralmente um suicídio
é multifatorial. Nem todo depressivo é suicida, e nem todo suicídio
é cometido por um depressivo. As duas coisas são separadas, mas com
certa frequência coexistem, por isso é necessário um tratamento
diferencial aos depressivos que são potencialmente suicidas.
Nesse
meu “experimento” conheci milhares deles. Entrei em fóruns
internacionais de auxílio a suicídio (sim, auxilio) e acredite,
muito mais pessoas do que você imagina estão discutindo as melhores
formas de morrer e planejando suas próprias mortes, a todo momento.
Cabe ressaltar que o ato de suicídio é separado do pensamento de
suicídio. Pensar em suicídio é algo que todo mundo faz, muito mais
do que se admite. Namorar a ideia do suicídio é comum
principalmente (mas não exclusivamente) entre os depressivos e com
algum transtorno de personalidade. O ato que não é (ou não deveria
ser) comum. Entre essas duas coisas - pensar e fazer - há toda uma
base, uma teia que liga todos os motivos que fazem com que a pessoa
escolha permanecer viva. O suicídio contradiz a inclinação natural
do ser humano que é a autopreservação, então pra chegar ao
extremo de romper todos os limites que compõe nosso instinto básico
de sobrevivência, e tirar a própria vida, é porque a pessoa perdeu
todos os vínculos vitais que a faziam querer continuar. Além dos
suicidas que conheci nos fóruns, fiz parte de um grupo de mortes no
Facebook, e lá conheci vários também. Quando eu comentei em um
post que cometeria suicídio em abril desse ano (era minha data
inicial, mas falhei em esperar até lá ushaus), choveu gente no meu
inbox. Uns pedindo dicas de suicídio, outros pedindo ajuda, e outros
querendo me ajudar. Aconselhei os que eu pude, a ajuda eu dispensei,
sempre disse que estava 101% certo do que faria, mas a amizade de
algumas pessoas que fiz lá, levarei comigo. Vocês foram essenciais
pra eu aguentar até aqui, foram essenciais nas minhas últimas
crises onde não pude contar com as pessoas que eu mais queria ter
podido, não citarei nomes mas quem é sabe, em ambos os casos. Não
vou ser hipócrita, deixo consignado aqui que fui a exceção à
regra e que recebi apoio de MUITAS pessoas, e outras, claro, não
deram a devida importância ao assunto. Mas eu sempre estive certo do
que faria, então essas atitudes menos zelosas, não influenciaram na
minha morte. A questão é: e se eu não estivesse certo? (como a
maioria das pessoas que gritam por ajuda não estão), e se eu
precisasse realmente das pessoas que eu amava e me faltaram? E se as
coisas que eu li/ ouvi nas últimas semanas fossem lidas/ouvidas por
alguém que estava só esperando um incentivo: ou pra morrer ou pra
continuar vivo. De fato, ia dar ruim. Pessoas estão pedindo por
ajuda o tempo todo e estão sendo negligenciadas com a mesma
frequência. Errar todos erramos o tempo todo, eu nasci errado e vou
morrer errando. Mas quando se trata de vidas, erros podem ser fatais,
a gente nunca sabe qual o limite do outro. A gente nunca sabe quanto
peso temos na vida do outro, a gente nunca sabe como uma palavra dita
de maneira ríspida ou de maneira gentil pode influenciar nas
decisões e na vida de uma pessoa.
Sou
grato a ambos os tipos, pois uns me fizeram ver o quanto a humanidade
está egoísta e outros me fizeram ver que uma minoria ainda é capaz
de ter empatia. Essa minoria, na minha concepção, não é capaz de
salvar o mundo do caos que ele se tornou, não vou ser utópico, tudo
só tende a piorar. Mas o que eu escrevi até aqui não se trata de
salvar o mundo, e sim de cuidar daquela pessoa que está do seu lado
no seu dia-a-dia, nada impossível, nada heróico, apenas humano.
Como diria meu 2º escritor favorito (o 1º é Pessoa), Charles
Bukowski: "a gente começa a salvar a humanidade salvando uma
pessoa de cada vez; todo o resto é delírio romântico ou político".
A
quem se deu o trabalho de ler esse TCC até aqui (ufa kkkk), eu te
desejo que sua humanidade seja renovada a cada dia. Eu espero que
você não tenha que perder seu filho para entender que a sua
religiosidade exacerbada e sua imposição disso á ele não
funciona, projetar nele seu ideal de vida também não, espero que
entenda que amá-lo somente enquanto ele está disposto a ser o que
você quer, não é amor... porque amor com cláusulas de condição
pode ser tudo, menos amor. Eu espero que você não tenha que perder
um amigo para perceber o quão bom ele era pra você, o quão ele se
esforçou para tentar manter ou recuperar sua amizade, mesmo quando
ele não estava bem consigo mesmo e com o mundo, mas você não se
importou... simplesmente preferiu jogar fora o que você mesmo disse
ser tão importante um dia - mas eu te entendo, afinal falar que é,
é fácil, difícil mesmo é ser... falar "eu estarei sempre
aqui pra você" é fácil, difícil mesmo é estar. E eu cansei
de ser, cansei de estar. Eu espero, de coração, que você não
tenha que perder o amor da sua vida enquanto busca desenfreadamente
se curar onde tuas cicatrizes tiveram origem, porque ele não tem
culpa disso (e nem você), mas é que independente de culpas, quando
o arrependimento bate ele corrói, e geralmente ele chega tarde
demais, e vai por mim: nada é pior do que tarde demais.
Hoje
eu morro engasgado (literalmente kkk) com todo amor que tentei dar
aos outros e que não souberam (ou não quiseram) receber, porque eu
fui daquele tipo de pessoa que tenta até o ultimo, eu tentava por
mim e pelo outro, tentava até sangrar minha alma, então todas as
pessoas que me perderam em vida, foi única e exclusivamente porque
quiseram e não por falta de eu querer ficar. Mas agora eu cansei de
tentar ficar. Faço aqui um “mea culpa” e isento a minha família
dessa parte, pois aqui quem já não conseguia mais tentar
dar/receber amor era eu, que em razão de conflitos passados criei
uma certa barreira. Meu pedido de perdão, em especial a minha avó
que nunca desistiu de mim.
A
mim mesmo, desejo que eu encontre a paz como nunca tive. Meu maior
desejo nos últimos meses (ou anos) é parar de sentir... e não é
somente os sentimentos ruins, é uma total ausência do sentir. Quero
crer que isso está prestes a acontecer, e embora haja opiniões
controvérsias, ninguém nunca voltou pra contar. O meu adeus aos que
ficam...
PS:
meu último desejo é ser cremado, e NÃO quero ter velório. Sério,
é pavorosa a ideia de pessoas envolta do meu cadáver, lamentando o
que eu considero ter sido minha melhor decisão.
Carta
postada no perfil do facebook desse jovem...
https://www.facebook.com/giuliano.imperato
