* Postado originalmente em 13/09/2005
O que dizer a vocês amigos?
Sinto-me perdido e covarde, talvez pela concepção geral de
que isso é uma fuga, um não querer enfrentar os fatos e dar a volta por cima.
Não concordo muito com essa concepção, o que dizer dos etíopes? São covardes,
burros e preguiçosos por morrerem de AIDS e inanição? Será que do mesmo jeito
que se alimenta o corpo com proteínas, vitaminas sais e água também não devemos
alimentar a mente pra que não morramos por dentro e apenas completemos o
processo com o corpo?
É eu morri por dentro. Por favor, não se sintam culpados,
não havia nada que vocês poderiam ter feito pra me ajudar, e talvez até
tentassem se eu desabafasse com alguém minha intenção de fazer o que devo ter
feito já que estão lendo minha despedida.
Várias coisas me mataram aos poucos por dentro, consumiram
minha vontade de tentar. As coisas muitas vezes dão erradas e aquela história
de que “Deus sabe o que faz” ajuda por um tempo, engana um pouco a gente e faz
com que tenhamos a esperança que um dia as coisas vão mudar de figura, que vai
pra frente, mas às vezes não vai, essa desculpa ficou tão vazia pra mim quanto
o conceito de Deus, ou ele está em algum universo paralelo ou está muito alto
lá em cima que meus soluços e gritos por clemência não conseguiram acordá-lo.
Por dentro jaz o que outrora foi um sonhador, visionário,
otimista e desafiador. Simplesmente acomodei-me com a dor, lutar só a
aumentava, parar de me debater poupou o mínimo para que eu tivesse uns poucos
momentos de satisfação na minha vertiginosa queda rumo ao abismo que me
encontro. Meu rosto sem expressão, essa melancolia estampada em meu ser de
forma residente é o fedor que ultrapassa a barreira metafísica e se manifesta
no físico. Já não consigo dormir, pensar, sonhar, amar. Estou morto! E sou ateu
o suficiente pra reconhecer que a fábula da ressurreição de Lázaro é apenas um
conto literário como qualquer outro, como a minha vida que não passou de uma
piada de mau gosto.
Não culpo ninguém e culpo tudo e a todos. Foi o momento, a
situação, as mazelas absorvidas ao longo de anos de humilhação, lutas,
esforços, todos em vão.
Não quero que se lembre de mim como um covarde, quero que se
lembre de mim como alguém que teve coragem suficiente para assumir um fato já
consumado e torná-lo finalmente físico. Alguém que resolveu dar um salto em
meio a toda amargura e desespero, que abriu os braços e pulou daquela
cachoeira, fugindo dos zumbis que o circundavam que também estavam mortos,
sendo que ao contrário de mim, eles mentiam pra si mesmos sobre isso.

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