Se isto fosse uma vulgar carta, deveria ter começado com
"Caro amigo," ou "Querida amiga," ou com outra amistosa
saudação.
Mas isto não é uma carta qualquer. Era suposto ser uma carta
de despedida. Só que não quero despedir-me de ninguém e ao mesmo tempo quero
despedir-me de todo o mundo. Vou tentar...
Filho da puta de mundo,
Não sei que mal te fiz eu, por isso tenho de perguntar:
Porque raio resolveste implicar comigo?
Desde que me lembro vivo rodeado de mentira, decepção,
fraude, traição. Sempre tentei tomar uma postura correta, sempre tentei viver
de modo a andar de cabeça levantada... E para quê? Para estar constantemente a
levar chapadas? E pontapés? E tareias? Não das físicas, das mentais que deixam
feridas muito mais profundas e difíceis de estancar. Nunca te pedi nada de
especial... Só quis a amizade e carinho de umas poucas pessoas e dinheiro para
levar uma vida digna. Não penses que é egoísta dizer que preciso de dinheiro.
Não é. Todo o mundo precisa de um mínimo de condições. Também não queria o
dinheiro se não tivesse com quem partilhar.
Agora as perguntas que me trazem aqui... Quanto é que uma
pessoa consegue agüentar? Durante quanto tempo? Existe um ponto de não retorno?
Porque é que me tiraste os pais ainda em criança? Porque é que nunca me
mostraste amigos verdadeiros, daqueles que estão presentes todo o tempo, no bom
e no mau, dos que gostam de nós, independentemente do que façamos,
incondicionalmente, que não nos traiam que aprendam com os seus erros? Porque é
que me ensinaste da maneira mais difícil que o Amor não existe? Que tudo não
passa de uma invenção do ridículo ser humano para tornar mais suportável a sua
passagem na vida... Que tudo o que fazemos neste planeta, que a nossa função é
a simples continuação da espécie. Pois bem, a nossa missão está cumprida! Somos
o ser dominante deste penoso planeta... Não tarda passaremos à extinção... Não
tarde também TU morrerás... Viverás apenas como pó estelar, e então outra raça alienígena,
quem sabe mais avançada que nós irá estudar-te e dizer: Neste pó, outrora viveu
a raça mais egoísta e mais narcisista que há memória na história do Universo...
Enquanto isso não acontece, limita-te a continuar a tecer os destinos de
pessoas que têm algum potencial, de pessoas que poderiam tornar-te melhor, de
pessoas que TE salvariam, desse teu modo tão imperfeito que deixa todos esses
cabrões e todas essas mentes obtusas e que não conseguem pensar por si próprio
dominar e atropelar tudo e todos... Se calhar estive sempre errado... Esses
tipos é que tiveram sempre razão: "Sucesso a todo o custo e o eu é que
importante, independentemente de quem tenhas de atropelar ou como tenhas de
atropelar"...
Pois bem, conseguiste o que querias! Quebraste-me! Amanhã já
não acordarei no banco deste automóvel a beira mar. No meu lugar estará um
corpo autômato... Um corpo sem preocupações, sem sentimentos, sem pensamento,
um corpo sem ALMA. Será um corpo que automaticamente acordará todos os dias e escrupulosamente
dirigir-se-á ao emprego onde desempenhará todas as suas tarefas e regressará à
noite para repor as suas energias, para no dia seguinte repetir o processo. E
isto é para onde caminha a humanidade... Seres autômatos... Robôs com as suas
funções.
Até sempre mundo cruel,
Espero que sejas extremamente infeliz,
Deste teu novo robô querido,
Zé Ninguém

Carta escrita por um português,não sei a idade e nem nehuma informação adicional
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